sexta-feira, 13 de junho de 2014

Em dia de Santo António, Fernando Pessoa

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir…
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João…
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante… Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera…
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.
Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não consertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz,
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto; é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo? O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arroste
Na nora de erros duns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história
Quem foste tu ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E, cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Por que demónio
É que foram pregar contigo em santo?

Fernando Pessoa, 9 - 6 - 1935

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005


IN  "O Meu Pessoa" https://www.facebook.com/omeupessoa?hc_location=timeline

FERNANDO PESSOA -13 de junho de 1888



Destinado a ser Joaquim, como o foram o seu pai e o seu avô paterno, o bebé nascido há 126 anos viria a chegar ao mundo naquele que era o Dia de Santo António, 13 de Junho. Por isso, o Joaquim deu lugar a Fernando (como o santo, de Bulhões).... Talvez também por isso, depois de uma vida a conviver com a Lisboa dos Santos Populares - e, entre eles, o "seu" António - Fernando Pessoa deu, no seu último ano de vida, um passo inesperado. Quase febrilmente, escreveu centenas de "quadras ao gosto popular", onde a simplicidade das rimas se junta à sua poética genial. As "quadras" de Fernando Pessoa estão, hoje em dia, disponíveis nas mais diversas edições e formatos livreiros, mostrando-nos um poeta mais próximo do povo, sem perder a sua tão característica complexidade temática. Vamos partilhar, ao longo do dia, vários exemplos. IN "O Meu Pessoa" 
https://www.facebook.com/omeupessoa?hc_location=timeline
 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A «Matemática dos Nossos Avós»

A «Matemática dos Nossos Avós»

As tradicionais rendas, os bordados, a cestaria, a calçada portuguesa, encerram uma geometria que está agora a ser alvo de uma recolha sistemática. A iniciativa, «Matemática dos Nossos Avós» inserida no Ano Internacional da Matemática do Planeta Terra, pretende também identificar unidades de medida em desuso e recolher textos em forma de provérbio, adivinha ou lengalenga.

Ana Clara; Fotos: IELT | domingo, 10 de Fevereiro de 2013 IN 

«A Matemática dos Nossos Avós» consiste em desvendar a geometria subjacente a algumas expressões da nossa cultura tradicional. Falamos de peças em cestaria, de trabalhos em rendas, de bordados, decorações de casas ou até mesmo da tradicional calçada portuguesa. Um trabalho que abrange igualmente a matemática da construção tradicional de casas, pontes, ferramentas ou embarcações portuguesas.

 A iniciativa, uma parceria entre o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Universidade Nova de Lisboa, pretende recolher materiais em forma de texto, áudio ou vídeo, promovendo ao mesmo tempo concursos, colóquios e debates sobre o tema, como explica ao Café Portugal Carlota Simões, coordenadora nacional do Ano da Matemática do Planeta Terra.

«A Matemática dos Nossos Avós» pretende ainda identificar unidades de medida já em desuso, adianta a investigadora, sem especificar, no entanto, algumas medidas, tendo em conta que o projecto arrancou há pouco tempo.

«Esta recuperação é um dos objectivos que temos em mente. Haverá decerto medidas antigas ditas “oficiais” mas é possível que existam medidas regionais que podem ser desconhecidas mesmo por investigadores e que urge estudar», sublinha.

Outra das temáticas é a recolha de textos em forma de provérbio, adivinha ou lengalenga que estejam «relacionados com formas de contar ou medir», tudo, esclarece a responsável com o objectivo de «recolher esse património cultural antes que seja esquecido».

Carlota Simões realça que outra das grandes prioridades deste projecto passa por recolher o material e «torná-lo público, ficando permanentemente online nos sites do Museu da Ciência e do IELT».

«É fundamental criar redes de contactos e trocas de informação entre pessoas e instituições que trabalham na mesma área», sublinha a investigadora.

Já toda a investigação em suporte áudio e vídeo ficará no site Memória Media.

Recorde-se que desde 2009, o Museu da Ciência e o IELT vêm desenvolvendo projectos de recolha de conhecimento dito tradicional no âmbito do Ano Internacional da Astronomia (2009), com a iniciativa «O Céu dos Nossos Avós»; do Ano Internacional da Biodiversidade (2010) com o tema «Os Bichos; do Ano da Química com o projecto «Sopas, Caldos e Mezinhas», e que se prolongou até 2012; e em 2013 o Ano da Matemática do Planeta Terra, com «A matemática dos nossos avós».

Carlota Simões lembra que a estes projectos podem associar-se instituições, «que podem participar de diversas formas: recolhendo materiais em forma de texto, áudio ou vídeo, promovendo concursos, colóquios e debates».

E acrescenta: «instituições como universidades seniores, lares, centros de dia podem ser fundamentais na recolha de materiais, mas também escolas, promovendo o diálogo entre gerações.

No início de cada ano nunca conseguimos prever o impacto que terá o projecto, pois tal depende também das instituições parceiras, mas para este ano que agora começa, temos a vantagem de começar o ano com a publicação de um livro de recolhas de textos com alguma relação com a matemática», referindo-se à obra «Contas X Contos X Cantos e que +», da autoria de Ana Paula Guimarães e Adérito Araújo.

Casa de Anne Frank abre portas na net

Museu do anexo onde a jovem judia se escondeu durante a II Guerra Mundial lançou uma visita virtual aos espaços encobertos em que viveu com a família. Veja o vídeo.
A casa onde Anne Frank viveu durante a II Guerra Mundial vai deixar de ser visitável apenas fisicamente. O museu Anne Frank, com 50 anos de existência e um milhão de visitantes por ano, vai disponibilizar, no website oficial, um "tour" virtual do anexo onde a jovem judia se escondeu das forças Nazis com a família e amigos durante dois anos, entre 1942 e 1944.

 https://www.youtube.com/watch?v=GTpXf5Np3Pw


"Por várias razões, nem todos conseguem visitar o anexo, quer seja devido a limitações físicas, quer por viverem muito longe. E devido ao espaço reduzido, apenas uma pequena fracção do espólio pode ser exposta no museu", pode ler-se na página oficial do Museu Anne Frank, que explica assim a decisão de criar a visita virtual.
O tour virtual apresenta detalhadamente items como as fotografias nas paredes, o padrão da roupa de cama e a cozinha apertada onde as oito pessoas viveram diariamente, sempre com medo de serem descobertas. Para além da mostra virtual do espaço físico, o plano avançado pelo Museu Anne Frank inclui ainda uma base de dados do espólio e uma "Linha de Tempo".
Anne Frank nasceu em 1929 em Frankfurt am Main, Alemanha, tendo posteriormente mudado para Amsterdão, Holanda. Em 1942, devido à chamada da irmã mais velha de Anne, Margot, para um campo de concentração, a família Frank escondeu-se num anexo atrás dos escritórios onde Otto, o pai, trabalhava. A eles juntaram-se Fritz Pfeffer e a família Van Pels. 


Fonte: 
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Tecnologia/Interior.aspx?content_id=1555332

Lusa lança arquivo com mais de três milhões de fotografias


Militares nas ruas de Lisboa no 25 de Abril de 1974 Alfredo Cunha/Lusa
A agência Lusa lançou um arquivo com mais de três milhões de imagens da história contemporânea de Portugal e do mundo. A galeria está agora disponível numa versão optimizada para computador, telemóvel e, em breve, televisão. 

A navegação no arquivo fotográfico pode fazer-se através dos destaques da actualidade, por temas, tags ou ainda através de uma cronologia que permite pesquisar imagens por décadas, anos, meses ou mesmo dias.

A primeira fotografia do arquivo data de 1913, mas seguem-se muitas outras, que através da força da imagem e da captação do momento documentam a história mundial e nacional das últimas décadas. Todas as fotos pertencem à Lusa e resultam de uma compilação do trabalho de 28 anos de existência da agência noticiosa.

O arquivo ainda não está disponível na versão televisiva, mas em breve poderá ser consultado no MEO, através do botão azul do comando. As versões web e mobile já podem ser consultadas.
 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A VIAGEM


«O homem tem na sua genética de vida, a viagem como elemento essencial. Ao nascermos, somos a viagem dos outros na nossa própria viagem. E por isso viajamos sempre. Aprendemos que a viagem é aprendizagem, aprendemos que os primeiros passos se aprendem, que as primeiras palavras se aprendem e que tudo se aprende. Na verdade, sem os outros, a nossa vida inicial pura e simplesmente se perderia.
Nesta viagem, não existe monotonia porque todo o percurso da infância, feito de descobertas, tem muitos tons e muitas tonalidades. Há uma pluritonia natural, se assim se pode dizer, na permanente aventura da descoberta que é o elemento essencial da viagem. Esta marca há-de ficar indelevelmente na nossa maneira de ser ao longo de toda a vida. Ou seja, a viagem como arma para combater a monotonia é uma raiz do ser e uma condição essencial da vida. Do outro lado teríamos o atavismo e os terríveis condicionalismos que reduzem o ser e retiram vida ao homem. É que, do meu ponto de vista, a monotonia é provocada pela falta de liberdade e toda a viagem implica liberdade.

Também a literatura é uma viagem inesgotável. Pluritónica, cheia de tonalidades. Num silêncio imóvel somos transportados para muitos mundos.
Já vi muitos viajantes - nos aviões, nos autocarros, nos comboios, absortos na leitura dos seus livros. São outras viagens dentro das suas deslocações.

Robert Louis Stevenson, (1850-1894) afirmou:
Eu viajo não para ir a lugar algum, mas para ir. Eu viajo pelo propósito de viajar. A grande sedução é a própria movimentação.»


excerto de um texto  Cristina Carvalho lido pela autora no LEV - Literatura em Viagem- Matosinhos, fevereiro de 2010

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D - O desembarque contado em 2 minutos

 http://www.liberation.fr/video/2014/06/06/le-debarquement-en-deux-minutes-chrono_1035345

Le débarquement raconté en deux minutes chrono

DIA D

Fonte: 
Embaixada dos EUA em Portugal:
70 years ago, on D-Day, the Allies landed around 156,000 troops in Normandy. The American forces landed numbered 73,000. 6,603 Americans soldiers died. How was your country affected by WWII? http://ow.ly/xEp52

“O Dia Mais Longo”

“O Dia Mais Longo” é um filme que retrata o dia que mudou o curso da 2ª. Guerra Mundial. Uma intensa e fiel recriação deste evento histórico, um olhar fascinante sobre os enormes preparativos, deslizes e eventos aleatórios que determinaram o desfecho de uma das maiores batalhas da História. Com as excelentes interpretações de Robert Mitchum, Richard Burton e John Wayne, a não perder, às 21:55.