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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Leitura(s)


 “Ler... Têm de reconhecer que há nisso qualquer coisa de especial, como se às vezes o que há de melhor nos seres humanos sejam as nossas palavras.
(Richard Zimler, "Ilha Teresa")

RICHARD ZIMLER na biblioteca da ESJE - hoje, 10.30


“A violência é o alimento e a bebida dos traiçoeiros.”

quinta-feira, 7 de maio de 2015

RICHARD ZIMLER




“Escrevo o que gostaria de ler” (Richard Zimler)
É  nosso convidado. Vai estar connosco dia 13 ,  às 10 horas, na biblioteca  da ESJE.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CONCURSO

Queres que o próximo volume da coleção Olimpvs seja dedicado à tua escola?
O oitavo volume da coleção Olimpvs.net vai ser publicado no início do próximo ano letivo. Mas as autoras ainda não decidiram a que escola o vão dedicar.
Vai ao Facebook Olimpvs.net, deixa o teu gosto e uma mensagem com o nome da tua escola.
As autoras escolherão das três escolas a fazer mais gostos e a deixar mensagens mais interessantes aquela à qual farão uma dedicatória especial no novo livro.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

DIA MUNDIAL DO LIVRO




O dia 23 de Abril é celebrado em todo o Mundo com a intenção de promover a leitura, os livros e os direitos de autor.
A data foi proclamada em 1996 pela UNESCO, que disponibiliza no seu sítio na internet sítio informação sobre os eventos ao longo dos últimos anos e uma mensagem da diretora-geral, Irina Bukova, para além de várias sugestões e recursos para a comemoração da data; aí se encontram também ligações para as diversas comemorações em todo o mundo.
Em Portugal a data tem sido assinalada ao longo dos anos. O dia é igualmente comemorado com atividades de promoção do livro e da leitura em muitas bibliotecas, livrarias e escolas.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

SEMANA DA LEITURA na ESJE

A poesia vai invadir algumas salas, hoje e amanhã, com o Grupo Poético de Aveiro.
Na quarta-feira e na sexta, através de várias experiências científicas, vamos comprovar que "Newton Gostava de Ler".
Na quinta-feira é dia de estarmos com as nossa equipas  (3º ciclo e secundário) na fase distrital do Concurso Nacional de Leitura, que este ano se realiza em Albergaria-a-Velha.

SEMANA DA LEITURA na ESJE - "Palavras do Mundo"

HISTÓRIA DAS PALAVRAS
As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra.
Uns estavam maravilhados, outros tinham-se cansado.
Os que estavam maravilhados abriam a boca,
Os que se tinham cansado também abriam a boca.
Ambos abriam a boca.
Houve um homem sozinho que se pôs a espreitar esta diferença - havia pessoas maravilhadas e outras que estavam cansadas.
Depois ainda espreitou melhor:
Todas as pessoas estavam maravilhadas,
depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cansadas.
As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um - mais luz, alegres – menos luz, tristes.
O homem sozinho ficou a pensar nesta diferença.
Para não esquecer, fez uns sinais numa pedra.
Este homem sozinho era da minha raça – era um Egípcio!
Os sinais que ele gravou na pedra para medir a luz por dentro das pessoas
Chamaram-se hieróglifos.
Mais tarde veio outro homem sozinho que tornou estes sinais ainda mais fáceis.
Fez vinte e dois sinais que bastavam para todas as combinações que há ao Sol.
Este homem sozinho era da minha raça – era um Fenício.
Cada um dos vinte e dois sinais era uma letra.
Cada combinação de letras uma palavra.
Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das
palavras.
 
Almada Negreiros

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER - sugestão de leitura

Herberto Helder deve grande parte da sua notoriedade a esta obra, que se configura como um livro de contos onde a fantasia do poeta se disciplina por um mínimo de enredo e de referências claramente objectivas, o que o reporta a um transcendentalismo que possui ainda algo de romântico. Mas, mais do que um livro de contos onde Herberto Helder reuniu textos de uma excepcional qualidade poética, Os Passos em Volta é uma deambulação particular por diversas vertigens, que prenuncia o volume de autobiografia romanceada Apresentação do Rosto (1968). Ambas estas obras se inscrevem num tipo de literatura pouco praticada entre nós, uma literatura de «diagnóstico psicótico», em que a auto-interpretação deriva directamente da interpretação dos sonhos. A literatura tem assim como objectivo, ajustar as experiências do narrador ao ângulo de recepção do leitor.

Os Passos em Volta representam os passos de um homem que lucidamente tenta descobrir o sentido da sua existência, e que não conseguindo obter nenhuma resposta a partir do transcendente, tenta traduzi-lo para a matéria do presente. Deste modo, o único sentido para a vida será o poema-corpo, donde parte e onde regressa o viajante que, das coisas que viu, traz uma «sabedoria vil, esmagadora». É considerando o corpo como sagrado e milagroso que o percurso da idade assume um carácter redentor, sendo que assim o viajante atinge o Reino da Utopia: um «lugar de sol» no país da linguagem.

Fonte:
http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/helder/pas_vol.HTML


domingo, 22 de março de 2015

Leitura(s)

Há Viagens e Viagens  IN    http://dererummundi.blogspot.pt/
Por Eugénio Lisboa

Heureux qui, comme Ulysse,
a fait un beau voyage.
Du Bellay

Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. E quase toda a gente inveja Ulisses, que, se não fez, exactamente, uma boa viagem, como canta Du Bellay, perpetrou, pelo menos, uma longuíssima e acidentada odisseia de retorno.
 
Há gostos para tudo. Du Bellay invejava Ulisses. Gide torcia o nariz à odisseia do grego, porque, no fim da viagem, esperava-o Penépole, que, para sempre, o iria amarrar ao lar. Exaltava, em contrapartida, Sindbad, o das Mil e Uma Noites, por ser livre como um passarinho: no fim da viagem, esperava-o, não uma amarra, mas uma nova viagem. Para Gide, também, uma viagem era apenas o prefácio à viagem seguinte, em contraste com a de Ulisses, que não passou de uma obrigatória navegação de regresso. Gide tinha igualmente um lar à espera, em Cuverville, mas fazia de conta que não dava por isso, e traiu, tanto quanto pôde – e sem complacências – a sua fiel Penélope que, para o caso, se chamava Madeleine. O que ele queria, está-se a ver, era copiar, com “gusto” e mesmo frenesi, o fluir libérrimo do marinheiro Sindbad.
 
Viajar tem boa e tem má imprensa. Há quem elogie, há quem diga mal e há quem, simplesmente, se aborreça. O actor e escritor Al Boliska propôs uma definição célebre que hoje anda citada por todo o lado: “Viajar de avião”, disse ele, “são horas de tédio interrompidas por puro terror.” Ainda assim, Boliska só critica o viajar de avião, não todo o viajar. Mas há quem demita qualquer espécie de viagem. O conhecido romancista Paul Theroux, com obra assinalável transposta para o cinema, observava que “viajar só é glamoroso em retrospecto”, isto é, só funciona depois de terminada a viagem, ao contá-la, ao serão, aos amigos. William Trevor dizia o mesmo, de outra maneira: “Ele só viajava para poder voltar para casa”, isto é, o melhor da viagem era o regresso. Nem Ulisses foi tão longe: suspeito que gostou mais da ida do que da volta…
 
De entre os demolidores do mito da viagem, citarei o talvez mais antigo (será?): Sócrates, que disse, imaginem, esta barbaridade: “Vê um promontório, uma montanha, um mar, um rio e viste tudo.” Como se não houvesse rios e rios, promontórios e promontórios, cidades e cidades! Quem pode ser de opinião que o Amazonas é o mesmo que qualquer pífio afluente de um rio de trazer por casa… Quem pode afirmar que ver Leiria é o mesmo que ver Paris ou Veneza! Ou como se Florença fosse o mesmo que Alguidares de Baixo! Ou como se o Iguaçu não diferisse grande coisa das pindéricas “cascatas” da Namaacha, da minha saudosa infância africana!
 
Claro que é preciso saber viajar, saber ver e, sobretudo, gostar de ver. Viajar por viajar é inútil e fica caro. Como dizia o outro, não vale a pena dar a volta ao mundo só para contar o número de gatos que há em Zanzibar.Viajar pode ser também uma fonte involuntária de conflito conjugal: viajar para onde? Os gostos diferem e está aí uma causa de briga. Isto mesmo observava Paul Sweeney, quando, saborosamente, notou: “Um dos maiores destruidores de felicidade conjugal é a escolha de um lugar para passar férias. Do que este país precisa é de um oceano na montanha.”
 
Mas não viemos aqui falar, hoje, dos que não sabem nem gostam de viajar. Viemos antes falar de alguém – Guilherme d’Oliveira Martins – que, à frente do Centro Nacional de Cultura, e a partir deste, rodeado de outros empenhados viajantes, amigos de conhecer, se meteu às sete partidas do mundo: “Na Senda de Fernão Mendes”, tal é o título do livro que recentemente deu à luz.
 
Porquê viajar? Qual, mais precisamente, o “porquê” de Oliveira Martins? Ele responde com meridiana clareza, logo no prefácio, a que deu o aliciante e revelador título de “Portugal me traz peregrinando”. Nestes termos: “…ao lermos Fernão Mendes Pinto ou Diogo do Couto facilmente entendemos como a viagem é matéria-prima de vida e de literatura, de existência e pensamento. A viagem torna-se, assim, consequência e continuidade da confluência de diversos povos e influências, num extraordinário cadinho de diferenças. A hospitalidade tem consequência no desejo de encontro do diferente, de outros lugares e de outras gentes. O fascínio da viagem ganha, assim, força e sentido.”
 
Não se trata, pois, de um exercício de mero mimetismo – viajar porque toda a gente viaja – mas de um profundo empenho vital (“matéria-prima de vida”), de obediência a um irresistível “fascínio”. É isso que dá vitalidade a este relato de um bom punhado de viagens ao encontro do mundo que o português criou ou, mais simplesmente, às vezes, o mundo por onde o português andou. E dá-lhe um suplemento não desprezível de vitalidade a imensa cultura do relator, que dela se serve com agilidade e “timing” surpreendentes. Há sempre um livro, um texto, uma passagem colhidos em autores que Oliveira Martins frequentou com mão diurna e nocturna e que iluminam um momento da viagem, um momento histórico, uma avenida esplendorosa…
 
O livro dá-nos uma larga fatia de mundo (mas não dá, hélas!, Moçambique): a Índia, o espectacular Iguaçu, Cracóvia, S. Petresburgo, Omã,  Japão, Malaca, Brasil, China, Cabo Verde, S.Tomé, Galiza, México, Mediterrâneo Oriental, Istambul, Trieste, a Eslovénia… Um mundo realmente vivido, mais do que apenas visitado, comentado com cultura sanguínea e não com seca erudição. Os portugueses – os grandes e os menos grandes – andaram por aqui e deles todos nos dá o relator vívida e afável conta.
 
Viajar – o convite à viagem! Há quem proteste em termos paradoxais: “É pena”, dizia Chesterton, “as pessoas viajarem por países estrangeiros; estreita-lhes de tal maneira o espírito.” Sterne, no seu imenso Tristram Shandy, não vai tão longe, mas faz uma recomendação: “Um homem deve também conhecer alguma coisa do seu próprio país, antes de ir para o estrangeiro.” Oliveira Martins documenta, substancialmente, esse conhecimento e essa preocupação: na Parte II (“De Portugal Abrange-se o Mundo”) dá-nos uma boa amostra de Portugal, à boleia de Garrett, de Antero, de França,de Ruben A., de Pomar, de Teixeira-Gomes…
Por outras palavras, Portugal não fica esquecido no tinteiro, antes, é saborosamente revisitado, com cicerones de excepção. “De norte para sul,” diz Oliveira Martins, abonando-se nesse almocreve cintilante, que é Miguel Torga, “começa por se fixar no Reino Maravilhoso - «do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e de Portugal abrange-se o mundo.» E sentimos que sempre houve e haverá reinos maravilhosos e sofremos o calafrio do assombro. Portugal é para Miguel torga um totem, uma referência altiva e permanente. Foi daqui que partiu o escritor para ver o mundo.” Bom discípulo, Oliveira Martins fez o mesmo, com bons companheiros, de olhos bem abertos e sempre havendo Portugal e os portugueses como referência. “Viajar é quase como falar com homens de outros séculos”, dizia Descartes. Nesta sua incansável peregrinação, Oliveira Martins não tem feito outra coisa.
 
(Texto publicado anteriormente no "Jornal de Letras"). 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"De Animais a Deuses - História Breve da Humanidade"

São 496 páginas de leitura compulsiva, informativa, fascinante. 
(Desidério Murcho, In http://dererummundi.blogspot.pt/

Nesta obra não se encontra o género tradicional de história da humanidade, geralmente bastante eurocêntrica e descrevendo quase exclusivamente pormenores da política e dos impérios. O que encontramos aqui é um enquadramento iluminante da história da humanidade, que é vista do ponto de vista do universo, como diria Sidgwick. A história de Harari abrange desde o aparecimento dos primeiros hominídeos até à previsível extinção do Homo sapiens. Mas é muito mais do que uma mera narrativa de factos biológicos, antropológicos, económicos e políticos: é uma tentativa de compreender a razão de ser das coisas. E, claro, muitas vezes essa é uma tentativa gorada, caso em que Harari expõe algumas teorias especulativas, os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Em muitos casos, Harari conclui que não sabemos, pelo menos para já, o porquê que procuramos. É o caso, logo no início do livro, do mistério da nossa solidão de espécie: ao longo de milhares de anos, o Homo sapiens conviveu com várias outras espécies de hominídeos, como aliás acontece hoje com as outras espécies. Subitamente, porém, as outras espécies desaparecem e ficamos apenas nós; porquê? Sabemos hoje, por exemplo, que muitos de nós temos alguns genes de outras espécies de hominídeos (temos genes de Neandertal, por exemplo), o que significa que houve cruzamento entre espécies. Mas não houve uma fusão de espécies porque se tivesse havido tal coisa, teríamos uma percentagem muitíssimo elevada de genes de outras espécies, coisa que não temos.

Harari divide a história da humanidade em três grandes períodos, que correspondem a três acontecimentos marcantes: a revolução cognitiva, a revolução agrícola e a revolução científica. Entre as duas últimas ocorre a unificação da humanidade, que deixa de estar separada em ilhas culturais, para passar a ser uma só cultura. Quando Hollywood imagina o faroeste do séc. XIX, com índios orgulhosos nos seus cavalos, dá a ilusão de uma cultura independente, o que é falso: os cavalos, por exemplo, foram reintroduzidos no continente norte-americano apenas no séc. XV, quando os espanhóis lá chegaram. (Reintroduzidos porque quando os antepassados dos indígenas norte-americanos, os primeiros hominídeos, chegaram ao actual continente norte-americano, havia cavalos, que prontamente se extinguiram com a pressão predatória humana.)

A revolução cognitiva ocorre quando os seres humanos desatam a imaginar coisas que não existem: nasceu a ficção. Deuses, demónios, espíritos, narrativas míticas, religiões, artes, surgem subitamente onde os Sapiens estão, desempenhando talvez, pensa Harari, o papel crucial de conseguir coordenar um número elevado de seres humanos, coisa que antes não era possível. Numa das muitas imagens memoráveis do livro, Harari faz notar que se colocarmos milhares de chimpanzés numa praça de uma cidade, o resultado será apenas uma cacofonia sem rumo; milhares de seres humanos, contudo, conseguem coordenar-se para se manifestar, por exemplo, contra o terrorismo. (Sobre os recentes ataques terroristas vale a pena ler o que me pareceu o mais lúcido dos artigos sobre o caso, da autoria de Yuval Harari, publicado pelo Guardian.)

O  livro surpreende a cada passagem pela simplicidade da sua linguagem, pela profundidade da visão do seu autor, e também pela verve, que põe ao serviço da compreensão de ideias profundas e por vezes difíceis. É um livro inteligente, pleno de ideias surpreendentes, de explicações iluminantes e de perspectivas novas. Desmontando sempre que pode muitas ideias feitas que hoje afogam o pensamento comum (como a ideia de que os seres humanos eram ecologicamente correctos antes da industrialização, ou a ideia de que só as relações heterossexuais são "naturais"), este livro presta um serviço inestimável ao esclarecimento da humanidade. Aconselho vivamente a sua leitura, e releitura, e penso tratar-se de um dos mais importantes livros de divulgação científica publicados nos últimos dez anos. Está de parabéns a Vogais, que soube publicar atempadamente um livro excelente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

GERAÇÃO Z

Mais rápidos, mais capazes, mais solitários, os Z vivem agarrados aos ecrãs, pensam com a ajuda da internet e estão permanentemente preocupados com a bateria do telemóvel. Que geração é esta que nasceu com a viragem do século?


Ler mais: 

http://expresso.sapo.pt/geracao-z=f903941#ixzz3NIm198qj

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

À volta da escrita

«Se pedirmos a Mário de Carvalho um exercício ele prescreve: leia. E volte a ler e a sublinhar, a tirar notas e a comparar edições e traduções. Quer aprender a escrever títulos? Vá a uma biblioteca e veja como se arquitectaram uma dúzia deles, e a mesma coisa para aberturas de contos. E passeie por museus, e veja ainda filmes de todos os tipos. “A escrita é feita com tudo aquilo que nós temos: toda a nossa vivência, tudo aquilo que adquirimos. Pode partir de um quadro, de um filme, de um sonho, mas tudo isto envolve a mobilização de uma totalidade — está tudo ligado. É importante tomar contacto com a extrema complexidade e riqueza deste mundo”.»de um quadro, de um filme, de um sonho, mas tudo isto envolve a mobilização de uma totalidade — está tudo ligado. É importante tomar contacto com a extrema complexidade e riqueza deste mundo”.»

In
Professores de Português Interactivos

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

RECEITA DE ANO NOVO


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"O Organista", novo conto de Lídia Jorge, apresentado no "Escritaria" 2014 , em Penafiel

Como a própria definição o diz, o vazio é um lugar onde não existe nada mas no interior do qual se espera que venha a acontecer tudo. Não admira, pois, que o vazio, cansado da monotonia abissal de não possuir coisa alguma dentro de si, um dia tenha chamado o órgão. E o órgão veio, com seus quatro mil tubos de metal e as suas quatro fileiras de teclas, e ficou a dançar no vazio, oscilando de um lado para o outro.

Só que o órgão e o vazio eram duas coisas distintas, uma dentro da outra, e as duas não produziam nada. Então, o órgão e o vazio juntaram-se  e chamaram (...)

fragmento de " O Organista"

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Lemos na imprensa


53,6 milhões  - Valor que o Ministério da Educação paga em refeições escolares no ano de2014


3 milhões - Número de idosos que irão existir em Portugal em 2060, quase mais um milhão do que atualmente


IN "Visão" nº 1126, de 2 a 6 de outubro de 2014





sábado, 27 de setembro de 2014

O princípio da ignorância

Não sabendo, como posso vir a saber? Não conhecendo, de que modo posso ter acesso ao conhecimento? O princípio da ignorância é um impulsionador pragmático

Interrogado sobre um tema, por mais especializado que este seja, um político profissional em regra nunca admitirá que não sabe a resposta, acabando por emitir a mais banal, obtusa e desapropriada opinião. O mesmo acontece com os comentadores profissionais dos media que, na posse de um menu de informações generalistas e numa atitude que pretende ultrapassar o nível rasteiro da opinião, assumem, mais pela atitude corporal ou pela ensaiada colocação de voz, a pretensão de um saber definitivo – e redundante, em particular quando se trata de previsões.
Passarão poucas horas até que dos referidos saberes futurologistas ninguém se lembre mais; porém, o facto de terem sido apresentados com a pose devida permitirá que quem o fez continue pronunciando-se com uma sapiência abrangente de tudo sobre o nada.
Até com professores isto sucede. Raramente admitem não terem para dar uma resposta adequada, contextualizada, precisa à pergunta inesperada do estudante. Esta atitude não é específica deste tempo, embora alguns dos seus aspectos o sejam: a pressão sobre a necessidade de acumular informação, associada à pressão para apresentar a resposta imediata, associada à ideia de que o recurso a uma prótese qualquer por parte do cibernauta contemporâneo o transforma, através de um mero clic ou de um simples toque num ecrã, no detentor de todas as respostas necessárias.
Curiosamente, nestas situações mencionadas é sempre negado o princípio da ignorância. Ora, esse princípio não tem necessariamente nada a ver com uma eventual e tonta apologia do analfabetismo, da iliteracia ou, sequer, da ataraxia formulada por Pessoa em certos versos de desespero. Pelo contrário, o princípio da ignorância é um princípio activo, uma força em potência ainda que pareça não exisitir; mas aí está latente parecendo infinitamente pequena mas inversamente proporcional a tudo o que pode fazer existir.
Na sua fórmula metafísica, o princípio da ignorância é, na verdade, um impulsionador pragmático: não sabendo, como posso vir a saber? Não conhecendo, de que modo posso ter acesso ao conhecimento? Todos os processos de conhecimento resultaram do reconhecimento deste mesmo princípio: a Enciclopédia d’Alembert ou a Einaudi, a Biblioteca Britânica ou o cinema de Béla Tarr, a tese dos fractais... resultaram da tomada de consciência, tantas vezes apenas sob a forma de um lampejo, de se estar num estado de ignorância. A partir desse momento de reconhecimento da ignorância não se passa simplesmente a estar na posse de um conjunto de informações, muito menos se passa ao conhecimento absoluto (se é que ele existe); a partir desse momento inicia-se um processo infindável de colocação de enigmas e procura de soluções, a que se seguem outros enigmas e outras soluções, e assim sucessivamente.
As enciclopédias e os dicionários, tidos como repositórios do saber organizado e disciplinado, são de facto formas inacabadas que continuamente reclamam ser preciso regressar ao princípio da ignorância. Este, pela sua natureza, manifesta-se nos pequenos momentos experienciais: frente a um glaciar, no meio do deserto ou da imensidão de um oceano a sensação empírica de pequenez produz em nós a sensação de uma gigantesca ignorância. Dir-se-á que estas são experiências limite, experiências existencialistas no sentido psicológico. Ainda assim, este princípio pode também activar-se no confronto com uma obra literária cujo horizonte de sentidos nos aparece como inalcançável ou até infinito, ou perante o teor de uma nova tese científica ou os traços de um simples desenho que nos remeta para um tempo anterior e em que a sensação de saber aparece como resultado (equívoco) do progresso linear. Também surge no instante da paixão em que o desejo do outro que é um desejo do esclarecimento absoluto do mistério do outro – e por isso nos confina a um lugar de existência parca e pequena. Em todos os casos, à angústia do não saber corresponde a esperança de vir a saber.